A bolha da IA está perto de estourar? Dois dos investidores mais respeitados do mundo acham que sim. Em poucas semanas, Michael Burry, que previu a crise de 2008 e inspirou o filme A Grande Aposta, e Ray Dalio, fundador da Bridgewater, um dos maiores fundos do planeta, fizeram alertas públicos sobre os riscos da corrida pela inteligência artificial. Ao mesmo tempo, um sinal vindo do mercado de dívidas fez até Elon Musk reagir com um “Yikes” (“Eita”, em tradução livre).
Os dois não dizem a mesma coisa, e é justamente isso que torna o alerta mais sério: eles chegam a conclusões parecidas por caminhos diferentes.
Michael Burry: “a bolha da IA pode estourar mais cedo do que tarde”
Em agosto, Burry trabalhava com 2028 como o ano mais provável para o estouro da bolha da inteligência artificial. Em 28 de setembro de 2026, mudou de ideia. Na sua newsletter, escreveu que “a bolha da IA pode estourar mais cedo do que tarde” e disse que estava “antecipando os prazos”.
E ele colocou dinheiro nisso. Burry trocou suas posições vendidas por opções de venda (puts), apostas que ganham se as ações caírem dentro de um prazo definido. A lista inclui alguns dos maiores nomes da onda da IA:
- Nvidia, a maior fabricante de chips para IA
- Micron, de memórias usadas em data centers
- Palantir, de software e análise de dados
- Oracle, de nuvem e bancos de dados
- Nebius e CoreWeave, que alugam poder de processamento para IA
- iShares Semiconductor ETF, um fundo de empresas de semicondutores
As apostas vencem entre junho e setembro de 2027. Ou seja, Burry agora espera uma correção em meses, não em anos.
O motivo: ele se apoia num relatório da gestora Ares Management segundo o qual o crescimento da IA depende de as grandes empresas continuarem gastando somas enormes em data centers e chips, enquanto a receita ainda não acompanha. Pelo relatório, bastaria “uma temporada em que a receita da IA decepcione” para que as empresas mudassem de rumo.
Ray Dalio: “estamos chegando perto”
Em 7 de outubro, durante a Forbes Global CEO Conference, em Singapura, Ray Dalio afirmou que a bolha da IA se aproxima do ponto de ruptura. Nas palavras dele, estamos “na parte do ciclo que vem antes disso, mas se aproximando”.
Para Dalio, três fatores podem furar a bolha:
- Juros em alta. Os juros dos títulos públicos estão nos maiores níveis em décadas, e o rendimento do título de 10 anos dos EUA chegou ao maior patamar desde 2002. Dinheiro mais caro pesa sobre empresas que dependem de crédito.
- Endividamento das empresas. Muitas companhias estão pegando empréstimos pesados para construir a infraestrutura da IA.
- A hora de transformar riqueza em dinheiro. Este é o ponto central de Dalio. Boa parte da riqueza criada pela IA existe só no papel, no valor das ações. Quando muita gente tenta vender para transformar isso em dinheiro, seja para gastar, pagar dívidas ou pagar impostos (ele citou a possibilidade de um imposto sobre fortunas), os preços caem. “Todo mundo diz ‘eu valho um bilhão de dólares’, mas tente gastar isso”, resumiu.
Dalio já havia dito, em junho, que “todas as grandes mudanças tecnológicas produzem bolhas”. As empresas gastam demais para não perder espaço para a concorrência, e a bolha estoura quando os investidores tentam embolsar o lucro.
CoreWeave: o sinal que fez Elon Musk dizer “Yikes”
Em 13 de outubro, o investidor Chamath Palihapitiya publicou um gráfico que chamou a atenção do mercado. Os títulos de dívida da CoreWeave, empresa que aluga infraestrutura de IA, chegaram a pagar 15% de juros ao ano durante o pregão e fecharam em 14,5%, um recorde.
Quando uma empresa precisa oferecer juros tão altos, é porque os investidores enxergam mais risco em emprestar para ela. Elon Musk respondeu com uma palavra: “Yikes”. As ações da CoreWeave acumulavam queda de cerca de 45% em 12 meses, segundo a Benzinga.
O episódio ilustra exatamente o que Dalio descreveu: juros subindo e empresas de IA dependentes de dívida.
A outra bolha: dívidas para financiar a IA
Para Palihapitiya, a corrida da IA pode estar criando também uma bolha no crédito privado, os empréstimos feitos fora dos bancos tradicionais. Os números ajudam a entender:
- Os investimentos de Alphabet (Google), Amazon, Meta, Microsoft, Oracle e SpaceX devem saltar de US$ 470 bilhões em 2025 para mais de US$ 1,3 trilhão em 2027, segundo a projeção dele.
- Parte dessa diferença está sendo coberta com dívidas, leasing e outras formas de financiamento.
- Os empréstimos diretos a empresas americanas passaram de US$ 96 bilhões em 2010 para cerca de US$ 2,4 trilhões em 2025, e quase metade foi para empresas de tecnologia.
- Mesmo assim, os empréstimos para empresas de IA cobram praticamente os mesmos juros que os demais, sinal de que os credores podem estar subestimando o risco.
Burry x Dalio: o que cada um enxerga
| Michael Burry | Ray Dalio | |
|---|---|---|
| Quem é | Investidor de A Grande Aposta | Fundador da Bridgewater |
| Quando falou | 28 de setembro de 2026 | 7 de outubro de 2026 |
| Principal risco | Receita da IA não acompanhar os gastos | Juros altos, dívidas e venda de ativos para virar dinheiro |
| Prazo | Apostas que vencem até setembro de 2027 | “Se aproximando” do estouro |
| O que fez | Apostou contra Nvidia, Palantir, Oracle e outras | Fez o alerta publicamente |
O que isso significa para o seu dinheiro
Se você tem ações de tecnologia, BDRs, ETFs ou fundos com investimentos no exterior, os alertas servem para rever atitudes, não para entrar em pânico:
- Diversifique. Concentrar tudo num único setor, por mais promissor que pareça, aumenta o risco.
- Fuja do efeito manada. Comprar porque “todo mundo está ganhando” é exatamente o comportamento que infla as bolhas.
- Cuidado com dívidas. Se juros altos ameaçam até grandes empresas, também pesam no orçamento de uma família endividada.
- Tenha reserva de emergência. Ela evita que você precise vender investimentos no pior momento.
- Pense no longo prazo. Quem investe com prazo longo e em ativos sólidos tende a atravessar melhor as crises.
A Bíblia já ensinava isso muito antes de existirem bolsas de valores: “Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza” (Provérbios 21:5). O alerta de Dalio sobre riqueza “de papel” também lembra as palavras de Jesus sobre não acumular tesouros onde “a traça e a ferrugem destroem” (Mateus 6:19). Prudência, paciência e o coração no lugar certo continuam sendo a melhor estratégia, com ou sem bolha.
Este conteúdo é informativo e não é recomendação de investimento.
Perguntas frequentes sobre a bolha da IA
O que é a bolha da IA?
É o risco de que as ações e os investimentos em inteligência artificial estejam valorizados muito acima do lucro que a tecnologia consegue gerar no curto prazo.
Quem é Michael Burry?
Investidor americano que apostou contra o mercado imobiliário antes da crise de 2008. Sua história inspirou o filme A Grande Aposta (The Big Short).
Quem é Ray Dalio?
Fundador da Bridgewater Associates, um dos maiores fundos de investimento do mundo, e autor de livros sobre ciclos econômicos.
Quando a bolha da IA vai estourar?
Ninguém sabe. Burry fez apostas que vencem até setembro de 2027, e Dalio disse que estamos “se aproximando” desse ponto, mas são avaliações, não certezas.
O que pode fazer a bolha estourar?
Segundo os dois, a receita da IA decepcionar diante dos gastos, os juros continuarem subindo, as empresas ficarem endividadas demais ou muitos investidores venderem ao mesmo tempo para transformar lucro em dinheiro.
A bolha da IA afeta quem investe no Brasil?
Pode afetar quem tem ações americanas, BDRs, ETFs de tecnologia ou fundos com exposição ao exterior. Uma queda forte nos EUA costuma mexer com as bolsas do mundo todo, inclusive a brasileira.



